O CULTIVO DO SENTIDO DO GOSTO
Jose Bento dos Santos, o produtor dos vinhos da Quinta do Monte D'Oiro, engenheiro químico de formação, cultivou, desde sempre, o 'sentido do gosto'. Contactou com alguns dos melhores sommelliers do mundo, 'Grandes Chefes de Cozinha', críticos de vinhos e de gastronomia, podendo dizer-se que, com a ajuda da equipa da Quinta, resulta destas experiências a forma como são produzidos os respectivos vinhos. Apresentados como 'vinhos com sentido gastronómico' e de 'estilo europeu', não têm nenhum segredo para o seu sucesso, que segundo Bento dos Santos se deve 'a trabalho e mais trabalho' nesta Quinta do século XVII, situada em Freixial de Cima, Alenquer, ao estudo exaustivo da mesma, em todos os aspectos, antes de passar à produção e a uma planificação metódica.
Foram plantadas as castas mais adequadas às condições ecológicas da Quinta, apesar de José Bento dos Santos se confessar um admirador incondicional da casta Syrah. O primeiro vinho lançado pela Quinta foi o Quinta do Monte D'Oiro Reseva 1997 e, desde então, a ascenção não mais parou. Mas o produtor procura não só fazer sempre melhor no campo dos vinhos, como também tornar o mais agradável e funcional a própria Quinta. Para tal escolheu cuspideiras desenhadas por Philippe Starck, esculturas de Joaquim Ramada, azuleijaria Viúva Lamego, fogões Maestro, executados pela Bonnet - marca que fornece os Chefes de Cozinha mais famosos, como Bocuse, Pic ou Pourcel -, enfim, uma lista de pormenores que, provavelmente, encontrarão a plenitude quando o projecto de uma 'viagem pela alta gastronomia', um projecto ambicioso ainda em estudo por parte do produto, se tornar realidade.
Todos os vinhos Quinta do Monte D'Oiro recebem óptimas classificações por parte dos críticos. Quando lemos acerca do tema dos vinhos parece que tudo o que é necessário à produção de um bom vinho é conhecido - solo, castas, temperaturas, maturação... - Qual o segredo dos vinhos da Quinta do Monte D'Oiro?
'Não existem segredos na produção dos vinhos, mas sim trabalho e mais trabalho. Tudo passa, como sempre, por definição de objectivos, planificação, orçamentação, execução, usando em todas as fases know-how e rigor. O know-how adquire-se diariamente: há que estar em contacto com todas as fontes de informação.O rigor faz parte da filosofia de excelência, de querer fazer bem e cada vez melhor, corrigindo erros ou adaptando soluções. E depois de se conseguir o produto ambicionado, há que levá-lo ao consumidor. Aí é a área Comercial e Marketing que tem de funcionar. No mesmo registo rigoroso, como se referiu para a produção. Tudo isto não é segredo, é apanágio de quem quer fazer bem, de quem quer ser competitivo. E felizmente, no nosso sector vitivínicola, muitos há a conseguirem execelentes resultados com a mesma metodologia.'
O 'sentido gastronómico do vinho', que tanto refere como diferenciador dos seus vinhos, resulta dos conhecimentos exaustivos dos dois sectores - gastronomia e enologia - para poder combinar os vinhos com as iguarias da melhor forma, ou antes dos conhecimentos enquanto engenheiro químico, como funciona?
'A preocupação com o sentido do gosto, quase posso dizer, faz parte de mim. Cultivei-a desde sempre e cultivo-a por mero prazer pessoal. Num projecto vitivínicola que iniciei há mais de uma dúzia de anos, fatalmente, essa cultura acabaria por se revelar nos vinhos que eu pensava elaborar. Foi Gerard Margeon - Chef sommellier de toda a organziação de Alain Ducasse - que disse um dia, durante uma prova dos nossos vinhos, que eles tinham 'um notável sentido gastronómico'. E acrescentou, referindo-se a mim próprio, 'que percebia bem a razão dessa ocorrência'
Define o terroir da Quinta do Monte D'Oiro como único e propício às melhores vinhas, mas também tem em conta as castas estrangeiras que se desenvolvem na perfeição naquele microclima. Para efectuar estas opções de quando importar castas ou manter as que possui, recorreu aos conhecimentos Richard Mayson, aos seus enólogos, como foi a organização e planeamento das vinhas da Quinta?
'A Quinta do Monte D'Oiro é conhecida - há registos e referências escritas de há mais de 300 anos. Essas referências indicavam já a demarcada qualidade dos seus vinhos. Pertenceu ao Visconde de Chanceleiros - figura sobejamente conhecida para podermos deduzir que não se interessaria pela Quinta, não fora o potencial vitvínivola - que aí desenvolveu importantes trabalhos na sua denodada luta conta a filoxera. Mas, para além destas referências históricas, foram feitos estudos aos solos e ao clima, para confirmar essa potencialidade. E só depois da posse de todos estes elementos, recorremos a especialistas que nos aconselharam as castas que melhor se adaptariam à morfologia solo-clima. A partir daí houve a minha decisão pessoal, escolhendo incondicionalmente o Syrah - que fomos buscar às Côtes du Rhône - e, também a Touriga Nacional, a Tinta Roriz e o Viognier. O Eng. Luís Carvalho propôs a Touriga Franca e o Petit Verdot - e em boa hora o fez. Mas eu também gostaria muito de cultivar um Cabernet Franc e um Merlot (encantar-me-ia ser capaz de me aproximar de um St.Emillion), mas o meu amigo Jacques Thienpot, produtor lendário 'Le Pin' e proprietário do 'Vieux Château Certan', em visita à Quinta, aconselhou-me a não as utilizar, justificando razões técnicas para tal (o que significa, no fundo, que jamais conseguiríamos, com as condições que temos, fazer, com aquelas castas, o vinho que sonháramos...). Por isso desistimos dessa via.'

Philippe Starck para as cuspideiras, fogões Maestro, esculturas de Ramada, anos de espera até atingir o ponto ideal e a ambição de produzir os melhores vinhos do mundo.As penalizações financeiras serão muitas...'Só o melhor é suficiente', como dizia Zino Davidoff?
'A ambição é fazer o melhor e não o melhor do mundo. O absoluto não existe - senão na forma divina - e não há 'o melhor do mundo'. Pode, isso sim haver o 'maior' do mundo (o homem mais alto, o maior produtor de vinhos do mundo, etc. etc.). A nossa obrigação é, perante os objectivos a que nos propusemos e dentro das condições em que
actuamos, fazermos a optimização do nosso trabalho. Isso significa cometer o mínimo de erros possível. Cada pequeno erro cometido vai afectar, mesmo que ligeiramente, o resultado final. Daí o rigor absoluto, já referido, que vai dar planificação à execução dos mais pequenos detalhes. Por exemplo, as cuspideiras são um objecto necessário, mas naturalmente feio, deselegante, às vezes mesmo nojento. Tentámos que esse objecto que vai ser utilizado por visitantes tivesse a maior dignidade possível. Isso também faz parte do todo.'
Através do crítico Richard Mayson chega à revista 'Decanter', uma bíblia do sector, mas também ao 'Mix in New York' de Alain Ducasse, três estrelas Michelin. Fala-se muito das classificações, da forma como são atribuídas, da pressão de vários lados no sentido de obter a consagração!Como vê este universo?
'A comunicação, todos o sabem, é, hoje em dia, fundamental. Até se discute se constitui em si 'o primeiro poder'. Não sei se constitui o primerio ou o terceiro, sei que precisamos de chegar ao conhecimento do maior número de pessoas possível (dentro do universo que nos interessa, obviamente) e que não temos condições financeiras, nem é esse o nosso objectivo por definição própria, de encetar grandes campanhas publicitárias. O nosso objectivo é fazer um vinho que tenha qualidade suficiente para poder emocionar os que o consomem. E que fiquem registados na memória esses momentos de prazer que desfrutaram a beber os nossos vinhos. Richard Mayson visitou-nos através da CVRE. Provou os nossos vinhos e proporcionámos-lhe uma prova contra os mais conceituados produtores mundiais de Syrah (Chapoutier, Guigal, La Chapelle). Ficou impressionado e - isso é uma atitude que reconheço - teve a coragem de o publicar.Mais tarde, já com um conhecimento mais profudno dos nossos vinhos, refere no livro dele 'Wines of Portugal', acabado de publicar, que o nosso Quinta do Monte D'Oiro é o melhor Syrah da
Península Ibérica. É a opinião dele e, a nós, só nos motiva a ir sempre mais longe. Já Alain Ducasse seleccionou como único vinho tinto do jantar de antestreia do novo restaurante 'Mix in New York' - oferecido a 100 jornalistas em todo o mundo - o nosso Vinha da Nora 1999. Aqui, dada a responsabilidade do evento para o sucesso do restaurante, o reconhecimento da qualidade do nosso vinho para aí estar presente, enche-nos de orgulho e satisfação. Da mesma forma que a escolha do Vinha da Nora 2000 para acompanhar o Menu de Degustação do melhor restaurante de Filadélfia (o 'Fountain' do 'Four Seasons') nos mostrou que a consistência de qualidade pela qual nos batemos está a ser, para já, reconhecida. Relativamente aos Guias e às classificações, são necessários e ainda bem que existem. Naturalmente que por vezes, há erros ou injustiças, mas quando tal acontece, tenho a noção que é mais por deficiência na definição dos universos a classificar (este tema envolve conhecimentos científicos significativos, mas que poucas vezes são aplicados aos casos em que nos situamos) que por uma questão de critério. De qualquer modo, o gosto é um tema altamente subjectivo, mas a divulgação feita pelos 'Guias' e as suas classificações, parecem-me ter, notoriamente, um resultado positivo.'
Quais são as suas referências em termos de produção vitivínicola ou mesmo gostos pessoais em termos de vinhos?
'Sou visceralmente a favor do estilo europeu, pela consagração do terroir e da mineralidade dos vinhos, pela nossa cultura ancestral de vinhos em detrimento da cultura de que se revestiu o 'Novo Mundo'. Isto não quer dizer que não haja vinhos absolutamente geniais no hemisfério sul, mas, em termos gerais, é essa a minha apreciação.'
Como vê a cultura de vinhos em Portugal e o conhecimento do público? Há mercado para vinhos com uma fasquia alta em termos de custos de produção e, por conseguinte, de preço elevado na venda?
'Portugal tem tradição no consumo de vinho de mesa, como todos sabemos. E o mercado reagiu da melhor forma ao inequívoco e consistente aumento da qualidade dos nossos vinhos. No entanto, a concorrência das outras bebidas, os novos estilos de vida, e das refeições, as campanhas anti-alcoólicas que insistiram mais no vinho do que noutras bebidas alcoólicas etc. etc. estão a levar à diminuição do consumo do vinho. Pelo nosso lado cremos que o consumidor vai, a pouco e pouco, ser cada vez mais exigente e premiar a qualidade. A qualidade pode existir igualmente num vinho de preço económico ou num vinho caro. Depende da ocasião que elegemos para o beber.'

Muitos produtores reconhecem uma especulação nos preços. O que pensa acerca deste tema no sector dos vinhos?
'Não sei se são os produtores que mais reconhecem a especulação no sector, o que sei é que não são os produtores que benficiam dessa especulação.Nós vivemos num sistema de mercado em que a distribuição é muito importante e onde quem arrisca comprar para guardar e depois especular, está numa posição perfeitamente legal.É assim em todos os sectores e, a meu ver, o mercado acabará por amortecer e corrigir com os seus mecanismos próprios essas pertubações.'
Como gostaria que o seu vinho fosse adquirido e mesmo vendido?
'O nosso vinho é produzido a um preço que, dados os cuidados e materiais utilizados (investimentos, tratamento da vinha, vinificação, barricas, estágios prolongados, garrafas, rolhas...) tem um custo de produção elevado em relação à média. Mas, se o compararmos com os vinhos que sofrem esses mesmo cuidados, o seu preço é bastante competitivo. Temos um lema na Quinta do Monte D' Oiro que está escrito e assumido: os nossos vinhos têm um preço que refelectem o seu custo de produção e um lucro justo e são assim lançados no mercado. Não participamos nas escaladas de preço e preocupamo-nos que a distribuição seja o mais efeiciente possível para que o vinho chegeue ao consumidor a preço justos.'
Como é a abertura da Quinta do Monte D'Oiro para o público em geral?
'Estamos a avançar com as estruturas necessárias para, no futuro, podermos ter uma oferta desse género mais regular. Por enquanto, apenas temos condições para aceder, por marcação prévia, a poucas visitas de pequenos grupos (15 a 30 pessoas) onde se inclui um almoço após visita às instalações e prova de vinhos. Estamos, no entanto, a preparar um programa muito ambicioso para uma espécie de 'viagem' através do mundo do vinho e da alta culinária, mas os seus contornos finais ainda estão por definir.'

Passemos para uma área inetavelmente ligada aos vinhos: a gastronomia. Viajando muito e conhecendo os melhores restaurantes do mundo, qual a sua opinião sobre a cultura gastronómica portuguesa?
'Temos uma cultura culinária que pode ser considerada similar a muitos países da Europa e até superior a alguns deles.Existem produtos e técnicas para os cozinhar de grande qualidade e até particularidade. Mas a invasão dos congelados, conservados, pratos feitos, etc. (que facilitou enormemente a vida das pessoas), a mulher a trabalhar fora de casa, a fast food apelativa e fácil, tal como em todos os outros países, faz abalar esa cultura secular. Gastronomicamente falando, não conseguimos ainda recuperar esse espaço que outros (a Espanha é um exemplo flagrante) já conseguiram, recuprando o gosto pelo que tem tradição, que é o nosso património culinário. Mas este sentido de 'voltar à natureza' é uma reacção que se impõe por si só, e nós também havemos de lá chegar.'
Sería possivel termos um Alain Ducasse português, com restaurante aberto em Lisboa, por exemplo?
'Temo que não. Lisboa não tem massa crítica para ocupar regularmente restaurantes desse tipo. Repare-se que, mesmo em Paris, os restaurantes três estrelas estão meio vazios ao almoço. Já lá vai o tempo das reservas com três meses de antecedência. E não esqueçamos que a maior clientela desses restaurantes são ainda turístas americanos e japoneses. Pensar dessa forma é o mesmo que pergunatr porque não temos um 'Louvre' em Lisboa ou um 'Met' com o mesmo programa de ópera. Mas em nenhum caso é pecado nem é depreciativo estas coisas não acontecerem! É apenas a nossa dimensão e posição geográfica que o determinam. Noutros campos onde a dimensão se possa esbater, temos capacidade de organizar com inegável sucesso (Euro 2004, Expo 98, destino turístico golfistas, entre outros).'

Propostas da Quinta
Vinha da Nora Reserva 2000
'Uma precisão notável e com um carácter muito fino. Gosto muito desta base frutada, com aquele pequeno toque típico dos grandes Syrah (noção de húmus, pequeno toque vegetal suportado pelos frutos negros', Gerard Mageon, Chefe Sommellier do Grupo Alain Ducasse
Quinta do Monte D'Oiro Reserva 2000
'O resultado é uma concentração sedutoramente madura, cor vermelha apimentada com notas de chocolate amargo,atingindo uns robustos 14% de alcoól. É ainda mais carregado e amplo, mais doce e sem aquele toque cortante do 'Chapoutier's 1995 Le Pavillon' (*) que abrimos para comparar. Tudo indica que a metáfora do ouro passa por este monte', Richard Mayson, revista Decanter, 2001
* um dos mais famosos Syrah da região de Hermitage (Côtes du Rhone) que Robert Parker classificou com 100 pontos e considerou 'encarnar' a perfeição absoluta
Clarete 2003
'A frescura deste vinho permite-lhe sublinhar um salmão unilateral acompanhado de lombarda ou um eisbein com coentros. O carácter ácido revela o sabor de uma Cabeça de Xara com molho ravigote, onde o vinho tinto se revelaria demasiado duro', Enogastronomia por Quinta do Monte D'Oiro
Têmpera 2001
'É um belo vinho. A sua cor rubi é muito carregada, apresentando já os primeiros reflexos de evolução. O aroma é exuberante, rico e complexo, onde sobressaem os frutos vermelhos bem maduros em perfeita harmonia com os aromas de da madeira de carvalho de grande qualidade. Com o tempo, começam desvendar-se outras tonalidades aromáticas: trufas, pimenta-preta e plantas silvestres. Na boca é opulento, com boa acidez e alguam adstringência, que lhe asseguram boa longevidade e óptima estrutura. O aroma de boca é um regalo e o seu longo final deixa as melhores recordações', Vírgilio Loureiro, Clube de Vinhos, Continente, 2003

Conhecer Alenquer
Como ir
Autoestrada A8, direcção Torres Vedras, saída Alenquer
Rotas Turísticas
'Alenquer através da História'
A primeira proposta de visita a Alenquer consiste num percurso ligado à herança do concelho, riquíssima em figuras e património, com passagem obrigatória por museus, igrejas, a Serra de Montejunto, o centro histórico da vila e os Paços de Concelho. Trata-se da mais generalista das rotas proposta pelo Posto de Turismo de Alenquer. Esta rota permite o conctacto com a produção que mais orgulha os alqueirenses: a produção de vinho, com uma prova numa das quintas vinhateiras. 'Alenquer através da História' realiza-se cada quarto sábado do mês e é necessário inscrever-se até ao domingo que precede. Acompamento de um guia.
'Rota das Igrejas'
Os visitantes são convidados a conhecer quatro igrejas, uma basílica e um convento, locais de culto religioso em seis diferentes freguesias do concelho. O património alqueirense inclui o primeiro convento franciscano de Portugal e a Basílica de Santa Quitéria. Esta rota realiza-se no segundo sábado de cada mês e a inscrição é obrigatória, tendo como 'data-limite'o domingo precedente.
'Moinhos de Vento'
Testemunhos dos métodos de trabalho e fertilidade das terras do concelho, noutros tempos os moínhos eram essenciais à subsistência das populações. Perderam, actualmente, essa utilidade, ficando, no entanto, a beleza própria. Ligada à ruralidade, esta rota permitirá um contacto estreito com a natureza. As inscrições são sempre gratuitas. O almoço é pago e realizado em restaurantes que apresentem a gastronomia típica da região. O Posto de Turismo situa-se no Parque Vaz Monteiro, em Alenquer, e os contactos são o 263 733 663 ou o cmalenquer_turismo@net.sapo.pt
Alojamento
Pousada de Óbidos
www.pousadas.pt
Restaurantes
Páteo Velho
R. 25 de Abril, 25
Ventosa
Tel. 263 760 466
A Coudelaria
Porto da Luz, Alenquer
Tel. 263 719 338